quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Colega do Ponto de Ônibus

Estudava no CEFET e tinha que pegar o onibus 1404 na avenida amazonas todo dia para ir e voltar pra aula. O ponto ficava numa subida íngreme. Lá em cima, antes de começar a descer, o 1404 parava em frente a uma escolha especial para surdos-mudos.
Alguns dias o ponto estava vazio. Alguns dias cheio. A maioria das vezes tinha algum aluno da escola especial esperando também. Chegava no ponto e ficava esperando. Olhava em volta um grupo de 5 pessoas. Aquele silêncio, misturado com o barulho da cidade, e todos os cinco conversando sem emitir som algum. No total silêncio daquela conversa todos falando com todos. Mãos abanando. Sorrisos nos rostos. Um cutuca o outro pra chamar atenção. Muita conversa, nenhum som, e eu ali, um completo analfabeto. O ônibus chega. Todos subimos. Dentro mais amigos gesticulando, mais sorrisos e mais silêncio, agora misturados com o barulho do ônibus e com os resmungos do cobrador.
Certo dia, estava sozinho. Quieto, esperando meu ônibus. Eis que chega um garoto. Era magro, vestido de uniforme e com a cara boa. Veio em minha direção, fez com mão apontando a boca e o ouvido e depois fez com mão sinal de não. Logo entendi, mais um colega da escola especial. Ele apontou para meu relógio. Fez cara de interrogação. Olhei pro relógio vi a hora e falei:
-”São 13:50!”
Fez que não! Tinha me esquecido, ele não escuta. Apontou para o relógio novamente. Eu mostrei pra ele o relógio. Era um relógio analógico com um visor digital. No digital marcava a hora certa. Como tinha preguiça de olhar o analógico e fazer as contas dos minutos, não o ajustava. O analógico vivia adiantado. Uma hora, as vezes duas. Naquele dia estava uma hora adiantado. O amigo olhou apenas o analógico, fez com a mão que agradecia, respirou fundo, olhou pro alto do morro e saiu correndo.
Quando dei por mim do que ocorreu, gritei. Não adiantou, obviamente. O amigo se viu atrasado uma hora inteira e subiu o morro correndo, em velocidade tão grande que nunca eu alcançaria.

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