sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Pequeno tratado sobre filas, cartões e inabilidade administrativa.


Por que será que detalhes da vida cotidiana que passam desapercebidos por muitas pessoas são um incômodo tão grande à minha pessoa? Cada vez mais, o mal atendimento ou a burrice administrativa vêm me tirando do sério. Outro dia estava a trabalho em Brasília. Como de costume, eu alugo um carro na Localiza. Para quem não sabe, Brasília tem o serviço de taxi mais caro do Brasil. É um assalto quando se comparado a São Paulo, a Belo Horizonte e até mesmo ao Rio de Janeiro. Em nossa capital federal se vai do centro da cidade até o aeroporto pagando 41 reais. Um abuso. Pior que isso é que a cidade possui a frota de taxis mais velhos do país. Acaba sendo uma grande vantagem alugar carros quando se vai a Brasilia. Bem, aluguel de carros costuma funcionar muito bem nos Estados Unidos. A terra da praticidade e do individualismo torna o aluguel de carros um sucesso. O Brasil também tem individualidade mas a praticidade passa longe daqui. Quando fui devolver o carro alugado tive que enfrentar uma fila enorme de pessoas que estavam alugando seus carros. O tempo passava e as 5 pessoas que estavam a minha frente na fila esperavam por sua vez. Existiam apenas duas atendentes. Uma senhora preenchia um cadastro para clientes que retiram carros substitutos como prêmio de seguradora. Outros dois rapazes negociam preços:
- “Eu quero um pálio!”
-“Não! Vamos pegar um fox!”
-“O Fox é mais caro senhor.”
-“Quanto mais caro?”
-“Vamos pegar o Pálio!”
E meu relógio mostrava que as chances de perder meu vôo aumentava fortemente.
A senhora do carro da seguradora sai. Outro senhor passa a ser atendido. Ufa! Agora têm apenas 4 pessoas na minha frente. O senhor não entende como funciona aluguel de carros. A atendente explica tudo. O senhor não quer fazer a pré-autorização no cartão:
-“Como assim mil reais???”
-“Senhor é só para segurança. Não vai ser cobrado.”
-“Mil reais????”
Do outro lado os dois rapazes ainda discutem qual carro a escolher com a atendente:
-“O Doblô é mais caro porque?
-“Ele é de duas classes superiores senhor.”
-“Cara vamos com o Pálio, vamos?”
-“Quanto custa o Corolla?
O relógio implacável marcava uma hora para o meu vôo.
Do lado esquerdo:
-“Mil reais é muito caro mocinha!”
Do lado direito:
-“O Siena tem ar-condicionado?”
Quatro pessoas na minha frente, e faltam 50 minutos. Depois de muito questionar, os rapazes vão embora sem alugar nenhum carro. A fila vai andando na mesma velocidade, com as mesmas perguntas e eu já pensando que vou ter que dormir em Brasília.
Chegou minha vez! Faltam apenas 35 minutos! Peço para pagar logo e voltar.
-“Senhor, infelizmente o AMEX não está passando hoje.”
-“Como assim? Esperei mais que meia hora e não tem como pagar?”
-“Não se preocupe senhor! O senhor pode ir pro aeroporto que assim que o AMEX voltar a gente debita do seu cartão e envia a nota fiscal para seu endereço do cadastro.”
Sai em disparada para o aeroporto. Por que a empresa líder do mercado de locação de veículos do meu país não tem uma entrega expressa? Todas as condições para isso eles têm. Tanto é que fizeram isso. Só que com um detalhe, eu tive que passar por todo o stress de correr o risco de perder o vôo. Não o perdi. Mas com certeza meu sangue ficou banhado de adrenalina por pura imbecilidade administrativa dessa empresa.
Por que as empresas tratam seus clientes tão mal assim? Será que estão querendo testar a máxima que diz que o brasileiro não desiste nunca? A vontade foi de desistir sim.
Esse caso parece um exemplo isolado. Mas existem vários outros, muito comuns.
Esse feriado de sete de setembro, fui com minha esposa e um casal de amigos à Campos do Jordão, apelidado por mim como Jordan Fields. Cidade bonitinha, com chocolate, muitos paulistas e cariocas se achando na Europa, bondinho pra uma pessoa, lojas de roupas e cervejarias. Como bom descentende de alemães que sou, no primeiro dia arrastei todos para almoçarmos em um restaurante famoso de comidas alemãs. Tudo muito bom. Tudo muito gostoso. No segundo dia nos aventuramos a ir no Gato Gordo. Para quem não conhece é um restaurante no meio de uma floresta, com mesas a céu aberto e muita natureza. Quando chegamos vimos que estava lotado. Paramos o carro, deixamos as esposas nos colocarem na fila, e fomos estacionar. Elas pegaram uma senha para nós. Estava eu novamente em fila. Fila para pagar caro por um almoço. Os pratos variam de 40 a 60 reais. Nos sentamos em um banquinho do lado de fora, bem em frente ao aviso:
-“Não aceitamos nenhum tipo de cartão”



Aviso que deixa bem claro que os clientes que só trabalham com cartão de crédito não são queridos no estabelecimento. Pior, corrijo-me, nenhum tipo de cartão é aceito, desde o de crédito, passando pelo smiles pelo fidelidade tam pelo cartão de visita e terminando no cartão de ticket. Imagina só! Pagar a comida nobre de pessoas finíssimas com ticket! Inadimissível!`
Tudo bem, eu tinha uma, e somente uma, folha de cheque. Meu amigo tinha dinheiro. Resolvemos ficar. A fila era chamada devagar. Resolvemos pedir um chopp ao garçon que passava de um lado pro outro na nossa frente. Nós quatro, sentados em um banco de madeira, do lado de fora do restaurante pedimos:
-“Garçon, nossa senha é 411. Vc pode trazer pra nós 2 chopps?”
-“Não, só posso servir quem está sentado!”
Meu amigo logo bufou:
-“Eu to em pé?”
-“Desculpe senhor. Deixa eu refrasear, só posso servir quem já tem mesa. Mas o senhor pode ir até o balcão lá dentro e pegar os 2 chopps. É mais fácil para o senhor.”
Bem, na minha visão, se é mais fácil para os clientes eles próprios se servirem, qual o motivo de existirem garçons? Tudo bem. Política da casa. Assim como o chopp em SP é pura espuma como política da casa, no Gato Gordo a política da casa é o cliente que está esperando levantar ir ao balcão, pagar antes (sim, o número da senha que pode ser facilmente amarrado à mesa no futuro não serve para pedir o chopp) e pegar sua bebida.
Meu amigo foi lá e voltou puto.
-“Tô puto!”
A mulher falou que eu tinha que pagar antes pois as pessoas costumam pegar e não pagar depois. Agora eu me pergunto, será que é porque as pessoas só têm cartão de crédito???
Bem, feriado, a idéia era não se estressar. Ficamos. Depois de quinze minutos e 2 chopps cada a fila andou e fomos chamados. Daí em diante tudo foi ótimo. As trutas estavam dignas de engordar felinos. A batata também estava boa. Tudo gostoso e poderia ter sido muito melhor se a primeira impressão tivesse sido boa.
As empresas precisam aprender a tratarem seus clientes de forma cortêz e não agressiva. As políticas das casas deveriam visar os clientes e não o benefício próprio da casa. Mas cá entre nós, se não fosse por essas duas empresas eu não estaria aqui escrevendo esse texto.


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